Trajetória

Nunca fui de lamentar quando uma situação não se apresentava do jeito que eu tinha idealizado. Sempre achei que as adversidades são como lapidações que a vida vai fazendo em nós para revelar o diamante que somos, e que nossas imperfeições escondem.

De cada lágrima que escorreu pelo meu rosto, aprendi uma lição valiosa e saí fortalecida das provas pelas quais passei. Nenhum aprendizado se perdeu… Tudo eu aproveitei para o meu crescimento pessoal. Mas reconheço que não nasci assim! A vida muito me ensinou… Eu tive uma boa escola!

Naquela época, lá em Araújos, interior de Minas Gerais, ser filha de um professor dava prestígio. A gente nem se importava com o pouco dinheiro que papai conseguia ganhar. A sabedoria do professor João Agenor extrapolava os limites de uma sala de aula. Educar era sua atitude natural.

O que fazia feliz a filharada do professor João era o jeito como ele ensinava sobre a vida… Tudo na base da conversa, da reflexão. Quando algum filho passava dos limites, ele o convidava a sentar junto num banquinho que ficava nos fundos da casa, onde a conversa começava sempre do mesmo jeito: “Vamos refletir um pouco…”

Refletir era a “chinelada” preferida de papai. Jamais vi nele a menor intenção de castigar um filho! Estava sempre muito ocupado em acolher, refletir e transformar desacertos em lições para novos acertos. Ele e mamãe exercitavam o amor com maestria. Talvez por isso eu só tenha descoberto que era pobre na juventude, quando fui estudar em Belo Horizonte.

Na época da vida na roça eu me sentia a pessoa mais rica do mundo, cercada de muito amor. Mamãe teve doze gestações, era um filho atrás do outro, mas nenhuma dificuldade tirava dela o entusiasmo pela vida. Dela os vizinhos diziam: “Dona Lilia é só alegria.”

Mesmo hoje, aos 78 anos de idade, com sinais de alzheimer, mamãe não larga da alegria. Tem predileção por flores, especialmente as rosas, para quem passa os dias cantando. E novamente, o professor João Agenor nos dá uma lição inesquecível do amor incondicional que nos ensinou a vida toda. Após a descoberta do alzheimer, comunicou aos filhos: “Da minha Lilia, cuido eu.”

Meu primeiro contato com a tristeza foi aos 16 anos, quando a morte nos levou o Luiz, aos 10 anos de idade. Era também meu afilhado. Lá em casa havia esse costume: um irmão batizava o próximo que chegava, com o dever de cuidar dele pelo resto da vida. Esse foi o jeito que papai e mamãe encontraram para ensinar aos filhos sobre responsabilidade e amor incondicional.

A partida de Luiz foi muito sofrida. Ele teve um câncer no estômago, ficou muito tempo internado, sem nenhuma certeza por parte dos médicos. Naquela época os diagnósticos eram muito demorados, mas Deus sempre encontra um jeito de nos comunicar coisas que precisamos saber com antecedência.

Quando o meu coração de irmã-mãe pressentiu que o fim estava se aproximando, fui para o hospital fazer companhia ao meu filho-irmão. Fiz então uma grande travessura para atender a dois desejos de Luiz: andar de pedalinho e tomar sorvete. Driblamos a vigilância das enfermeiras e fugimos juntos do hospital.

Dr. Walter nos repreendeu na volta, mas ele mesmo reconheceu que Luiz estava com outra aparência, mais alegre, e isso era tudo que me importava naquele momento. Se ele tinha que partir, que fosse feliz e em paz.

Alguns dias depois, o meu “Piluga” partiu, deixando meu coração em pedaços. Ele só voltou a sossegar quando ouvi um consolo muito especial de papai: “Deus foi muito sábio, filha, pois colheu uma flor muito especial para o seu jardim.”

A partir daquele momento, eu pensava no meu menino e logo surgia na minha mente um belo lírio, a flor que simboliza a pureza e a inocência, igual ao Luiz… Isso deu paz ao meu coração.

Nasceu ali o meu encantamento pelo universo das flores, sempre belas e radiantes em busca da luz do sol, querendo talvez nos dizer que na natureza nada se perde, tudo se renova e renasce.

Comecei então a entender melhor as atitudes de Deus. A tristeza deu lugar à aceitação, que fez nascer em mim a doce lembrança de um menino que me ensinou tudo sobre o amor incondicional e a imortalidade da alma.

Mais fortalecida na fé, já no caminho da espiritualidade, eu cheguei a Belo Horizonte para estudar Pedagogia. Queria ser educadora como meu pai. Queria ajudar a transformar vidas, não apenas transmitir conhecimento, não apenas informar, mas formar seres humanos mais felizes.

Com uma intenção tão definida assim na cabeça, mas sem um centavo no bolso, a vida me levou ao professor Wilson Trópia, que tinha fama de ensinar a pagar contas com o pensamento. Acabei entrando em contato com um ser de muita luz, que falava sobre os poderes ilimitados da mente e como acessar a sabedoria do coração.

Nasceu dentro de mim a vontade de fazer da minha vida uma grande sala de aula, onde eu pudesse contribuir para a formação de seres humanos despertos. Gente de mente brilhante e coração grande, pessoas que realmente mereçam ser chamadas de humanas.

Há 25 anos eu tenho a felicidade de gerenciar, junto com o Paulo, amor da minha vida, o INDESP, o primeiro Instituto de Desenvolvimento Pessoal do Espírito Santo. Juntos, nós temos o privilégio de compartilhar com milhares de pessoas tudo o que aprendemos na área do comportamento humano.